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Robô que monitora gastos, descobre deputado que almoçou 30 vezes no mesmo dia

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Um grupo que reúne desde desenvolvedores de software a um sociólogo, todos envolvidos no mercado de tecnologia, criou uma plataforma para identificar mau uso de verba pública por deputados federais.


Espalhados entre Porto Alegre, Brasília, São Paulo e até na Itália, os oito descobriram um meio de analisar mais de dois milhões de notas fiscais de forma automática para detectar uso abusivo da cota parlamentar –reembolso a que deputados têm direito para o exercício do mandato.



Numa maratona de análise computacional e humana na semana passada, a força-tarefa, financiada por um crowdfunding, contestou o reembolso de R$ 378.844 desde 2011. Foram 629 denúncias contra 216 deputados à Câmara –sendo dois candidatos à presidência da Casa.
Bruno Pazzim (esq.), Irio Musskopf e Ana Schwendler trabalham no projeto com o robô
Após o passar pelo software, cada caso é analisado por uma pessoa, que depois encaminha as denúncias. O grupo costuma aguardar respostas para divulgar os casos.

A ação recebeu o nome de "Operação Serenata de Amor", inspirado no "caso Toblerone", um escândalo da década de 1990 na Suécia que provocou a renúncia da então vice-primeira-ministra Mona Sahlin por uso do cartão corporativo para gastos pessoais.

"A gente acredita que a corrupção não começa em milhões. A gente corta desde o início, no momento em que o deputado pode pedir uma nota fiscal para um taxista de R$ 80 quando ele na verdade gastou R$ 40. Se ele souber que tem alguém olhando, talvez não chegue a roubar dinheiro de merenda", diz o desenvolvedor Irio Musskops, 23, idealizador do projeto.

O desafio é ensinar "Rosie" –apelido dado ao programa inspirado na doméstica-robô do desenho "Os Jetsons"– a identificar casos estranhos. O foco na fase inicial do projeto tem sido identificar gastos suspeitos com refeição.

O robô aponta pagamentos num curto prazo de tempo em cidades muito distantes, compras feitas fora de Brasília enquanto o deputado discursava em plenário, valores considerados acima do normal e outras contradições.

Num primeiro teste, em novembro, ela identificou 40 anomalias, das quais nove foram reconhecidas pela Câmara como mau uso da verba.

Entre os casos estão a compra de cinco garrafas de cerveja em Las Vegas pelo deputado Vitor Lippi (PSDB-SP) e de 13 almoços no mesmo dia reembolsados ao deputado Celso Maldaner (PMDB-SC). A cota é para uso exclusivo do parlamentar, e é proibido comprar bebidas alcoólicas.

Os dois atribuíram o erro a suas assessorias, que não retiraram as compras indevidas ao solicitar o reembolso, e devolveram a verba à Câmara.

"Fomos ensinando o robô a combater a corrupção. Ele entende padrões e identifica o que está fora", disse o jornalista Pedro Vilanova, 23, também integrante do grupo.

Na última semana, "Rosie" questionou dois candidatos à presidência da Câmara. O deputado André Figueiredo (PDT-CE) gastou R$ 248,52 em novembro de 2014 na pizzaria Valentina, onde uma pizza grande custa hoje em média R$ 70. Para o reembolso, ele apresentou uma nota manual que descreve apenas "despesa com refeição".

Rogério Rosso (PSD-DF) recebeu R$ 294,69 por um almoço em maio de 2016. Foram consumidos quatro pratos, sendo três filés de costelas no Roadhouse Grill, em Brasília.

Rosso disse que houve erro no reembolso e devolveu o dinheiro. Figueiredo declarou não ser possível identificar erro em gastos de dois anos atrás, mas disse que desde 2015 reduziu os pedidos de reembolsos por alimentação.

A cota parlamentar autoriza reembolso ao deputado com gastos em refeições, combustíveis, material de divulgação do mandato, passagens e outros. Em 2016, foram gastos R$ 211,2 milhões.

O limite mensal varia de acordo com o Estado que elegeu o parlamentar: vai de R$ 30,8 mil para eleitos no Distrito Federal a R$ 45,6 mil, em Roraima –de acordo com o preço das passagens aéreas para cada Estado.

Folha de São Paulo

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